Douradores de pílulas
Dourar a pílula é uma expressão da língua portuguesa e significa apresentar algo difícil ou desagradável como uma coisa mais suave e mais fácil de aceitar.
A expressão “dourar a pílula” está relacionada com a figura de linguagem conhecida como eufemismo que consiste na substituição de um termo ou expressão rude, chocante ou inconveniente por outro mais suave ou agradável.
Em inglês, os canadenses me explicaram que esta expressão popular é muitas vezes traduzida como “gold plating“, cuja tradução literal é “revestir de ouro“, mas uma tradução mais adequada é “sugarcoat“, que significa “envolver em açúcar“.
Origem da expressão
Entre 865 e 923, viveu o médico persa Rhazés, que foi o primeiro a ter a ideia de revestir remédios sólidos ou pílulas, para que fossem mais facilmente ingeridos. Ele fez uso de sementes de uma planta, sementes que têm um sabor doce e que em seu interior possuem uma substância que fica viscosa quando entra em contato com a água. Dessa forma, essa substância envolvia a pílula, tornado-a mais doce e fácil de engolir.
Alguns anos depois, um filósofo persa chamado Avicena, que com apenas 16 anos já praticava a medicina, usou folhas de ouro e prata para revestir os comprimidos. Um comprimido revestido em papel dourado fica mais bonito, apesar de seu sabor não ter sofrido qualquer alteração. Muitos farmacêuticos depois utilizaram a mesma estratégia para venderem melhor os seu comprimidos.
Por esse motivo, a expressão “dourar a pílula” é uma forma de mascarar a realidade, fazendo com que algo doloroso fique mais suave. No entanto, é importante esclarecer que “dourar a pílula” não é mentir, é adoçar uma verdade amarga.
Douradores de pílulas
Quando você vira imigrante, algumas coisas que vêm junto com o processo é bem amargo e muitos que passaram por isso, as adoçam. Não são mentiras, que já caí em algumas como conseguir Daycare em um dia ou comprar um carro no Canadá com a carteira de motorista G1, mas outros pontos de vista de quem já passou por situação parecida, e até pior, mas hoje podem contar o processo de imigração com outros olhos.
A gente mesmo saiu do Brasil com uma situação de conforto: dois carros, apartamento praticamente quitado, salário mais que justo, plano de saúde, condomínio fechado com piscina e academia, escola particular para o meu filho. Mas mesmo nessa situação, não estávamos felizes. Talvez a perda do meu filho Leo doesse ainda muito, mas felizes, nós não estávamos. E decidimos vir para o Canadá.
Aqui, ao chegar, passamos pelo deslumbramento de turista, mas uma hora essa fase passa e a gente entra no mundo real. Como nos falaram, a gente volta a ter dezesseis anos, quando podemos ter conta no banco, namorar e andar de mobilete, mas para as demais coisas, a gente tem que provar várias coisas, antes de ganhar um voto de confiança.
Uma das coisas que mais incomoda depois do deslumbramento inicial, é a velocidade de resolução dos canadenses, ou de um outro ponto de vista, um lugar sem jeitinho brasileiro ou despachantes que conhecem alguém que pode acelerar o processo.
Só para ficar em um exemplo, meu filho Gui está há meses na waitlist para a Daycare (pré-escola) e enquanto ele não conseguia uma vaga, eu não poderia começar a estudar inglês no YMCA e nem começar a trabalhar nos mesmos horários que a Tati. Então, como não há alternativa de Daycare particular na cidade e sem suporte de avós, tão comum no Brasil, a gente teve que esperar. Toda a semana íamos consultar, e ainda não surgiu uma vaga para o Gui em nenhuma Daycare.
Muita gente não gosta desta velocidade canadense e diz que o país é comunista, socialista ou outros istas. Aí, não vê a hora da experiência terminar e ir embora daqui o quanto antes. Mas para todos os outros demais que se adaptam, sabem que é só um preço a pagar para um país que funciona.
Recomendo a leitura deste post do blog do Adriano Silva, ex-editor chefe da Superinteressante do Brasil, e que mora em Toronto: Morar num lugar em que tudo funciona tem um preço. Você topa pagar? Muitas verdades são ditas neste post. Em outros, Adriano Silva é igualmente preciso sobre morar no Canadá, sem ser um dourador de pílulas.
Espero a aprender com ele e, enquanto esse blog existir, dourar as pílulas o menos possível para vocês.