Nosso primeiro ano no Canadá
Um ano de Canadá! Como Roberto Carlos cantou: “Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!” E quantas emoções! Quando a nossa consultora educacional, Poliana, perguntou se a gente queria vir com o Canadá com emoção ou sem emoção, e a gente escolheu a primeira opção, não esperava que Deus (ou o Universo) responderia: “Ah, é? Toma!”
Brincadeiras à parte, queria compartilhar com vocês 5 Vivências e Aprendizados nesse primeiro ano de Canadá, e um ano de Sarnia-ON. Vamos lá?
1. Saudade
Acho que se perguntar para quem mora no exterior o que mais pesa na vida de imigrante, para 99 em 100 pessoas, é a saudade (chutei esse número, e não é oficial, mas conheci gente que não tem um pingo de saudade da terra natal). Aqui saudade vou dividir em três tópicos:
a. Saudade da família: a não ser que você tenha vindo de um lar abusivo ou desestruturado ou outro motivo forte, saudade da família vai ser bem grande. Se você vem com filhos, a impressão que dá é a de que você está aqui por eles, e nos dias que dá um nó na garganta, a voz embarga e os olhos marejam por causa da saudade, você lembra que está aqui por eles, a superação vem. Aí uma video-chamada, um aúdio no Whatsapp diminui, mas não aplaca. Acho que para quem vem sem filhos, a saudade deve ser muito maior.
b. Saudade dos amigos: nós brasileiros temos três círculos de amizade como eu falei nesse post sobre amizade no Canadá. Aí, na pressa em ser aceito por um grupo, a gente escancara a nossa carência e vamos fazendo “amizade”. às vezes dá certo, outras vezes quebramos a cara. Mas se entendermos os três círculos, vamos sentir falta daquele amigos íntimos, que foram forjados ao longo de anos, que você pode falar ou fazer qualquer coisa, que ele vai estar do seu lado, como na amizade entre o Sam e o Frodo. Esses amigos são os que mais dão saudade.
c. Saudades da cultura brasileira: brasileiro tem seus estereótipos. Somos calorosos, passionais, festeiros, falamos alto, a nossa culinária é rica, nossa TV, música, futebol e cinema são únicos. É claro que vai ter gente que vai botar um iptv para ter seu gatonet e acompanhar o BBB ou todos os campeonatos de futebol, ou que vai reclamar da pizza canadense, da churrasqueira à gás, da praia de água fria e por aí vai. Uma coisa que eu digo é: dá pra se virar e adaptar. E outra: a experiência fica muito mais rica quando você mergulha em outra cultura. Então, pra mim, saudades da cultura brasileira é bem gerenciável.
2. Medo
Os medos me deixaram insônes diversas vezes. O primeiro medo foi o dinheiro. Quando fechamos o College e logo depois aplicamos para o visto, CAD$1 canadense estava custando cerca de R$3,04. Quando chegamos no Canadá, CAD$1 já estava R$3,12. Depois foi só subindo e não baixou mais. As reservas que a princípio durariam dez meses, logo durariam 9, 8, 7.
Tínhamos que fazer dinheiro no país e logo, e nos falaram que era só chegar no Canadá que era emprego garantido em uma grande produtora de cannabis. Chegando aqui essa produtora demitiu mais de 10% dos trabalhadores e as contratações pararam.
Mas não era um grande problema. Daria pra fazer dinheiro com aplicativos de entrega e de passageiros. O mesmo que falou da produtora de cannabis nos convenceu a comprar um carro logo, e disse que dava pra emplacar o carro com a carta de motorista G1. Era mentira. Só com a G2 ou a GFull era possível. Imagina o carro na garagem por um mês e ter que ligar todo dia por 10 minutos para não zerar a bateria durante o inverno.
Quase 2 meses depois que cheguei no Canadá, consegui tirar a carta G Full, emplacar o carro e comecei a entregar pizza por indicação de outro brasileiro, mas queimamos quase três meses de reserva com a compra do carro no momento errado. No terceiro mês de Canadá comecei a fazer UBER e a instalar internet via rádio.
No quarto mês, consegui um emprego full time, continuei fazendo UBER e instalando internet, porque nossas reservas durariam só dois meses sem trabalhar. Eram 60, 70 e às vezes mais de 80 horas de trabalho na semana para fechar as contas e minimamente recuperar parte das reservas. O meu maior medo era o dinheiro acabar e ter que voltar desempregado e mais pobre do que quando saí.
Outros medos vieram. Gravidez surpresa da Malu, todo o pré-Natal e se a gente teria que pagar o parto cesariana. Se o Gui sentiria o impacto de se adaptar em outro país. A pandemia. Pensa que é mole?
3. Insegurança
Antes de vir para o Canadá fui me matricular em uma escola de inglês perto de casa para um curso rápido. Me nivelaram como “avançado” e não tinha turma.Então dei um jeito de zerar as lições do Duolingo. Meu padrinho de casamento também deu algumas aulas para mim e pensei que daria pra me virar. Ledo engano. Cheguei no aeroporto de Toronto, não entendia ninguém falando comigo.
Compramos chips para os celulares, alugamos nossa casa, instalamos internet, eletricidade e gás, mas quem negociou tudo foi minha esposa. Minha primeira entrevista de emprego, não entendi quase nada do que me perguntavam. Nem na segunda ou na terceira. Só consegui começar minhas aulas de inglês no YMCA em março de 2020 e em abril consegui meu emprego full-time.
E a creche (daycare) para o Gui? Ao contrário de nossa cidade natal, aqui no Canadá não existem creches públicas. E pra dificultar, descobrimos que haviam três listas de espera em Sarnia: a primeira para crianças cidadãs canadenses; a segunda para filhos de refugiados e filhos de famílias com residência permanente; e a última para crianças de famílias com visto temporário e era nessa que o Gui entrou. A primeira lista rodava rapidinho; já a terceira nada. Em março conseguimos contato com a ONG Wee Watch que conseguiu para o Gui uma homecare. Assim, consegui fazer as aulas de inglês.
E também tinha o pré-natal da Malu. O seguro-saúde não cobria as consultas e nem combriria o parto. Cada consulta, era paga do nosso bolso. Precisaríamos do OHIP que nesse post eu explico todo o processo: Entendendo o que é o OHIP. No final, deu tudo certo e a Malu chegou superbem! (Veja em: Malu chegou!)
4. Cansaço
Para fechar nossas contas mensais, precisaríamos de cerca de CAD$2500 mensais. Entregando pizza, instalando internet e fazendo UBER eu conseguia levantar esse dinheiro. Mas com a gravidez da Malu, eu precisava de um emprego full-time registrado. Consegui um emprego full-time no dia 06 de abril de 2020 em uma Nursing Home (casa de repouso).
Fui contratado como Técnico de Manutenção Predial, vulgo, zelador. O salário quase dava para os nossos custos mensais, mas precisávamos refazer as nossas reservas e nos preparar para pagar o parto cesariana da Malu caso não conseguíssimos o OHIP.
Então eu trabalhava 5 dias por semana das 8h às 16h, e nos dias de folga ou depois das 16h, eu ia instalar internet quando tinha alguma instalação. Várias vezes chegava em casa depois das 21h, depois de escalar torres com ventos gélidos de temperaturas negativas e andar em telhados cobertos de neve. Quando não estava instalando internet, tentava fazer UBER.
Mas não sou mais jovem. Algumas semanas eu trabalhava os sete dias e só folgava algumas noites. Um dia o cansaço chegou. Escorreguei de um telhado, minha pele da barriga e dos braços ralou toda. Só não caí do telhado porque estava de cinto de segurança. Fiquei duas semanas sem fazer trabalho extra. Já tinha recuperado um pouco da nossa reserva de tanto trabalhar.
5. Os planos e a realidade
O maior aprendizado de todos é que a maioria das coisas que nos preocupamos, jamais vão acontecer. No papel tudo é lindo, mas a realidade é outra.
Depois da Páscoa do Léo, o obstetra da Tati pediu que esperássemos 3 anos para ter um novo bebê e o útero recuperar de duas cesarianas. A Malu chegou com 15 meses.
Vim com o plano de trabalhar assim que chegasse em Sarnia em uma greenhouse, mas só fui trabalhar depois de dois meses, entregando pizza e fazendo UBER.
Achávamos que nossas reservas dariam para 10 meses, mas com as mudanças do câmbio e da burrice de comprar um carro antes da hora, as reservas iriam acabar em 5 meses.
Muitas são as variáveis em nossa vida e nem todas podemos controlar.
Pra finalizar
Se o seu plano é viver no exterior, virá com pessoas que dependem de você e você não é rico e nem herdeiro, deixo alguns conselhos:
- aprenda o máximo que puder a língua do país que você vai morar.
- traga o máximo dinheiro que puder e se der pra ganhar dinheiro remotamente ou passivamente, melhor.
- aprenda o máximo de habilidades possível. Se não sabe, aprenda a cortar seu próprio cabelo, a fazer reparos domésticos e veiculares, a cozinhar, trocar fralda, trocar óleo do carro, trabalhar em altura, usar algum maquinário pesado, lavar muita louça, faça bicos de garçom e ajudante de cozinha. Veja o que se encaixa com você.
- você vai pastar e viver abaixo do que vivia antes por um bom tempo. Se prepare psicologicamente.
- faça as pazes com todo mundo que é relevante com você ou que você acha que foi ou vai ser importante.
- tenha fé que dias melhores virão.
P.S.: Fiz um vídeo com um compilado. Se quiser assistir, taí!